Artigo teórico
Teatro Político Virtual
Sempre admirei tudo que envolvesse arte em geral, mas sempre tive uma paixão a mais pelo teatro, atuação, performances e todo esse conjunto que envolve um artista. Porém, nunca tive a oportunidade de estudá-lo e ver como era de verdade. Sempre estudei em escola pública e seja no ensino fundamental ou médio, as artes cênicas nunca fizeram parte da minha rotina escolar. Foi só agora, na universidade, que tive minha primeira experiência real com uma parte do teatro, e não qualquer teatro, mas o teatro político.
Desde o começo das aulas, percebi que essa disciplina seria diferente de tudo o que já vivi. Eu já sabia que o teatro e as artes cênicas eram uma forma de se expressar e se conectar com as pessoas de toda e qualquer forma possível. E o teatro político é muito mais que isso pois ele não se limita a contar histórias; ele provoca, questiona e nos faz enxergar o mundo com outros olhos. Ao longo do semestre, participei de atividades que me fizeram refletir ainda mais sobre questões sociais e sobre como o teatro pode ser uma ferramenta poderosa para se expressar e transformar realidades.
Neste texto, quero compartilhar como essas vivências me impactaram e como elas me mostraram que o teatro é muito mais do que apenas uma forma de entretenimento.
Começando pelo trabalho final da disciplina, meu grupo e eu optamos por fazer uma apresentação totalmente online usando a plataforma Discord. Foi uma experiência boa e complicada, mas, sobretudo, foi um aprendizado. Nossa ideia principal era criar um impacto no público sobre a IA (Inteligência Artificial). Nossa cena seria um debate que envolvia uma árvore histórica plantada pelos povos indígenas, uma universidade que foi construída em homenagem à história da árvore, um hospital público da universidade super renomado, com ótimo atendimento que em breve seria fechado, e o projeto de um hospital privado, que exigiria a derrubada da árvore para sua construção. No final, fizemos uma enquete para o público decidir se a árvore deveria ser derrubada ou não, com o resultado sendo manipulado pela IA para indicar que a árvore seria derrubada. Quatro personagens com perspectivas de vida totalmente diferentes entraram nesse debate:
Ana: Ativista ambiental que defende a preservação da árvore por questões climáticas e históricas. (Ana é uma ativista já cansada das lutas perdidas, desacreditada do sistema.)
Larissa: Estudante que argumenta contra a derrubada da árvore, destacando o impacto social da privatização do hospital. (Ana e Larissa são estudantes da universidade, mas defendem a preservação da árvore por diferentes perspectivas. Ana luta por uma visão ambiental e econômica, enquanto Larissa enfatiza as questões sociais envolvidas na privatização do hospital.)
Gustavo: Empresário que quer derrubar a árvore para construir um hospital privado e evitar sua própria falência.
Rafaela: Motorista de Uber que inicialmente apoia Gustavo, pois acredita que o hospital privado gerará mais trabalho e melhorará a mobilidade urbana.
Tivemos uma aula onde a professora Dhenise mostrou a apresentação de uma cena virtual chamada “12 Pessoas com Raiva”. Era meio que um debate também: 12 pessoas que eram júri popular tendo que votar pela inocência ou culpa de um menino, e apenas uma questionava se o menino era culpado ou inocente, enquanto os outros já tinham decidido que ele era culpado. Eu particularmente achei essa performance incrível, parecia tudo muito real. Os atores estavam tão envolvidos que, por um momento, você podia jurar que aquele debate era real e que, de fato, alguém seria declarado culpado por eles. Foi tão gostoso ver os personagens mudando de voto tão naturalmente ao longo da cena e, a cada fala deles, era um impacto. Às vezes você estava rindo com as falas sem noção de um dos personagens e, em outra, estava completamente em choque com o tremendo descaso de alguns. Acredito que essa apresentação influenciou inconscientemente na criação do nosso trabalho e acredito também que esse é o teatro, quando você está totalmente entregue ao personagem. E, melhor ainda, o teatro político te proporciona isso de uma forma mais intensa.
Não posso dizer que o nosso trabalho deu errado e nem certo. O que posso dizer é que nossos erros nessa apresentação partiram desde conexão com a internet até uma falta de comunicação prévia com o público. A verdade também é que sinto que poderíamos ter desenvolvido uma história muito mais interessante, com questões diferentes. Para ser honesta, pensamos em criar um personagem homossexual, mas não conseguimos desenvolver uma história junto com a história da árvore e, por isso, decidimos então deixar essa ideia de lado, pois acreditamos que seria melhor do que seguir o que muitas indústrias fazem com o famoso 'queerbaiting', um conceito em que obras de ficção insinuam representatividade LGBTQIA+ sem realmente desenvolver esses personagens de forma autêntica. E, de fato, foi melhor assim, porque isso é algo horrível de se fazer. Avaliando nossa cena e nossa atuação, posso dizer que nos saímos muito bem, considerando que todo o meu grupo não era da disciplina de artes cênicas e que era nossa primeira vez fazendo algo desse tipo. Este trabalho nos proporcionou experiência, diversão nos ensaios e a responsabilidade de encarar um projeto que envolvia questões sociais e políticas. Onde por um momento, deixamos de lado nossas próprias crenças para entrar nos personagens e fazer aquilo que nos foi proposto: impactar e provocar o público com a nossa performance. Como Jota Mombaça propõe, é preciso pensar em uma “redistribuição desobediente de gênero e anticolonial da violência”, ou seja, desafiar as formas como o poder se impõe sobre determinados corpos e histórias. Nossa cena refletiu isso ao mostrar como a manipulação de dados e interesses privados podem influenciar decisões coletivas, mesmo quando a escolha parece estar nas mãos do público.
Por fim, foi um prazer fazer essa disciplina e aprender tanto sobre teatro político virtual com a professora Dhenise e meus colegas de classe. Eles me ensinaram muito, e espero continuar a ter contato com a disciplina de artes cênicas, pois sinto que, neste semestre, me aproximei ainda mais de um sonho distante. Obrigado a todos.
Gabriela Sebastiana Pereira dos Santos
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