MATHEUS PEREIRA GONCALVES

Durante este semestre, tive a oportunidade de cursar a disciplina TEAC 2024 - Teatro Político Virtual, que tinha como objetivo explorar e compreender as particularidades do teatro político virtual no Brasil. O foco era investigar como as plataformas digitais podem ser utilizadas na criação de espetáculos que abordam questões sociais e políticas contemporâneas, além de desenvolver métodos de atuação e criação de cenários personalizados para esses ambientes.Embora a princípio pudesse parecer um desafio simples — especialmente considerando que, recentemente, vivemos um período de interações predominantemente virtuais devido à pandemia —, encontramos diversas dificuldades ao longo do processo. Isso ficou ainda mais evidente durante a apresentação do meu grupo, que adotou um formato híbrido, combinando elementos online e presenciais. Um dos teóricos que estudamos em sala foi Bertolt Brecht (1898–1956). Embora ele nunca tenha escrito especificamente sobre teatro virtual, pois essa tecnologia não existia em sua época, seus conceitos — especialmente o teatro épico e o efeito de distanciamento (Verfremdungseffekt) — podem ser aplicados ao teatro digital contemporâneo. Brecht defendia um teatro que conduzisse o espectador à reflexão crítica, em vez de apenas envolvê-lo emocionalmente. No teatro virtual, esse efeito pode ser potencializado por alguns aspectos principais como: interatividade, uso de múltiplas telas e desconstrução da narrativa linear.A interatividade, por exemplo, foi explorada na apresentação do meu grupo ao permitir que o público participasse ativamente como se fizesse parte da organização e dos bastidores do jornal, que era o tema central do nosso espetáculo. Outros grupos adotaram abordagens diferentes, como a inclusão de debates dentro das cenas e a quebra da quarta parede, dando ao público a autonomia para decidir o desfecho da história por meio de votações abertas promovidas pelos personagens.O uso de múltiplas telas e linguagens híbridas também foi um recurso essencial. No nosso grupo, exploramos essa técnica ao alternar entre repórteres que entravam ao vivo por chamadas de vídeo e a âncora, que conduzia a apresentação do jornal. Também inserimos comerciais em formato de vídeos, ampliando a imersão do público na narrativa. Por fim, a desconstrução da narrativa linear foi um elemento recorrente em todas as apresentações. No nosso caso, o público teve o poder de escolher qual reportagem iria ao ar para encerrar o jornal. No entanto, essa escolha levava a uma quebra de expectativa, pois as reportagens fugiam da linha cômica adotada ao longo da apresentação, abordando, em vez disso, temas mais sérios inspirados nas reflexões da autora Jota Mombaça, que também estudamos em sala de aula. A experiência de explorar o teatro político virtual revelou-se desafiadora, mas também enriquecedora. Compreendemos que, apesar das dificuldades técnicas e estruturais, o teatro digital abre um vasto campo para novas formas de expressão artística e de engajamento crítico, reafirmando sua relevância na contemporaneidade.

A arte como uma forma de ação política foi um dos conceitos trabalhados a partir do projeto "Laboratório Integral de Demolição e Criação de Monumentos". Durante as reportagens do nosso jornal, incorporamos uma crítica política satírica ao apresentar o "presidente da China", interpretado por Jackie Chan, que tomava a decisão de substituir todas as lojas do McDonald 's por restaurantes de sushi. Essa narrativa funcionava como uma paródia do governo de Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos, que adotava medidas como a deportação de imigrantes e o aumento da taxação sobre diversos produtos importados. O gesto do fictício "Jack Chan" simbolizava uma "vingança" exagerada e cômica, evidenciando as contradições e impactos das políticas protecionistas e nacionalistas por meio da ironia e do humor. Assim, a arte se tornou um instrumento de protesto, utilizando a linguagem teatral para questionar dinâmicas políticas globais e propor uma reflexão crítica sobre a interferência dos estados na economia e na cultura.

Portanto, para concluir, sinto que devo expressar as emoções e experiências que vivenciei ao longo do processo, desde os ensaios até o grande dia da apresentação. No início, sentia-me como se estivesse caminhando descalço sobre um caminho de pedras, pois sempre tive dificuldade em estar confortável em me expor seja de qualquer forma em um ambiente onde conhecia poucas pessoas. Para mim, romper essa barreira da timidez era um desafio imenso. No entanto, quero fazer uma menção especial à docente da disciplina e à minha colega de turma, Kath, que me mostraram que aquele espaço não era apenas uma sala de aula, mas um ambiente seguro. Elas me ajudaram a trilhar esse caminho, colocando uma sandália em meus pés e tornando a jornada mais suave. Logo percebi que eu não era o único a enfrentar essas dificuldades, e essa sensação de cumplicidade tornou a imersão na disciplina mais leve e prazerosa. Todos estavam mergulhados nas ideias, participando ativamente, compartilhando experiências e colaborações. A criação da apresentação, dos figurinos e de cada detalhe do espetáculo foi um momento único e enriquecedor. Outro fator que me marcou profundamente foi a diversidade de idades dentro do meu grupo, que, longe de ser um obstáculo, se revelou uma riqueza. A troca de experiências entre diferentes gerações fortaleceu ainda mais nosso processo criativo e reafirmou a arte como um espaço de encontro, aprendizagem e transformação. Muito obrigado tia Dhenise.


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